Agostinho Leandro da Costa nasceu na cidade de Morretes, litoral do Paraná, em 1857, filho de Leandro José da Costa e Josepha Maria Rodrigues, casados, sem posses, ambos pardos. Provavelmente ainda bastante jovem, aprendeu o ofício de alfaiate, profissão exercida também por seu irmão, João Leandro da Costa. Aos 20 anos, aproximadamente, Agostinho já estava integrado ao meio associativo da cidade, e foi eleito para o cargo de Procurador do Club Alpha, importante agremiação literária de Morretes, que em 1880 mantinha uma biblioteca com 343 obras, além de jornais do Paraná e de outras províncias. O clube também era um local de encontro de abolicionistas locais, e em 1883 concedeu cartas de alforrias a vários escravizados.

A experiência adquirida por Agostinho Leandro naquele ambiente associativo talvez o tenha encorajado a participar da política legislativa, pois em 1882 ele assumiu uma das vagas na Câmara Municipal de Morretes como vereador, exercendo o mandato até pelo menos 1884, ano em que decidiu subir a serra e estabelecer moradia em Curitiba.

Nessa cidade, Agostinho Leandro exercia atividades no comércio. Núcleo Popular foi o nome dado por ele ao botequim que abriu na Praça Dom Pedro II (atual Praça Tiradentes), um dos espaços mais movimentados da cidade de Curitiba. No local, de acordo com os anúncios publicados na imprensa, era possível encontrar uma grande variedade de comidas e bebidas, jogar bilhar e ler jornais.

Quatro anos depois, em 1888, ele alugou, no Largo da Ordem, uma casa na popularmente conhecida Rua do “dr.Trajano” (Trajano Reis), médico baiano muito conhecido na cidade por atender a população mais pobre. Naquele endereço ele estabeleceu o Hotel Paraná que, mais do que um local de estadia para pessoas de passagem por Curitiba, servia como espaço de encontro e de trocas de ideias. Na imprensa encontram-se anúncios de reuniões de grupos diversos que ocorriam nas dependências do hotel.

Se é possível notar ao longo da trajetória de Agostinho Leandro sua atuação em vários espaços de sociabilidade, foi entre os trabalhadores que ele se tornou um líder e um militante da causa operária. Logo após a Proclamação da República, em 1890, junto com alguns companheiros, ele fundou o Partido Operário de Curitiba, sendo o primeiro presidente da agremiação partidária. Ainda que congregasse pessoas de origem sociais distintas, esse partido se destacava pela presença de diversos homens negros, alguns deles ex-escravizados. Isso evidencia a importante inserção da população negra também no meio político parlamentar, logo no início do período republicano em Curitiba.

Alguns dos membros do Partido Operário eram sócios de sociedades mutualistas locais, como a Sociedade Protetora dos Operários e a Sociedade Treze de Maio. Esses grupos eram organizados e mantidos por trabalhadores e trabalhadoras que buscavam melhorar suas condições de vida, militavam por condições de trabalho mais dignas e, no caso da “Treze de maio”, estabeleciam ações para confrontar o racismo vigente na sociedade. A esposa de Agostinho Leandro, Eurydice Eunira do Nascimento, foi procuradora na Sociedade Recreativa 28 de Setembro, associação cujo nome referia-se à data da promulgação da Lei do Ventre Livre, e que era um importante espaço de presença negra na cidade.

Eram esses interlocutores que Agostinho Leandro pretendia alcançar quando lançou, em 1891, o jornal Operário Livre. Além de diretor, ele também era o redator-chefe do periódico, que tinha tiragem semanal e que em seu primeiro número já explicitava seu objetivo, afirmando que defenderia os interesses dos operários, do povo e das classes produtivas. Os textos publicados no Operário Livre enfatizavam a necessidade de projetar e atingir um futuro mais digno para os trabalhadores da época, estabelecendo caminhos para isso. O jornal almejava ser um instrumento de instrução da classe trabalhadora, abordando temáticas relacionadas à importância do voto, da escolarização, da liberdade de imprensa, da valorização do trabalho e da situação da política local e nacional. O conteúdo veiculado pelo periódico evidencia a percepção acurada que Agostinho Leandro tinha das desigualdades sociais e raciais existentes na sociedade em que vivia e do caminho de transformação que vislumbrava para esse cenário.

Operário Livre era também um forte instrumento de crítica à política local. Em seus sete anos de existência, com algumas interrupções, o jornal publicou vários textos criticando práticas de algumas lideranças políticas da localidade, principalmente em relação ao nepotismo e o mau uso do dinheiro público.

Operário Livre, 4 de junho de 1891.Curitiba. p.1. Acervo particular da autora.

Possivelmente pela popularidade adquirida por meio do jornal e pela sua atuação junto aos trabalhadores, em 1892 Agostinho Leandro elegeu-se deputado estadual e atuou nos debates para a elaboração da Constituição do Paraná promulgada naquele ano.

A visibilidade de um homem negro que assiduamente criticava os poderosos e que ocupava espaços públicos na imprensa local e no legislativo incomodou setores da sociedade curitibana. Em abril de 1895, a oficina onde funcionava o Operário Livre foi atacada e Agostinho Leandro passou a ser acusado, por um grupo que se identificava como Guarda Branca, de defensor da monarquia. Era por meio do jornal A República que esse grupo, também conhecido como “rapaziada republicana” se manifestava. A escolha de tal jornal não foi fortuita; nesse período seu diretor era o senador Vicente Machado, um membro da oligarquia paranaense e um desafeto político declarado de Agostinho Leandro. O grupo, que perseguiu outros oponentes políticos – como Rocha Pombo -, agregava a desqualificação racial nos ataques que fazia a Agostinho Leandro, referindo-se à cor de sua pele de forma vexatória, como fez num dos textos publicados no jornal A República. A própria escolha do termo “Guarda Branca” para se definirem diz muito sobre a estratégia que o grupo adotou para combater aqueles que, sendo negros, eram seus opositores. Ao evocar uma evidente contraposição à Guarda Negra, o grupo trazia à tona diversos conflitos ocorridos logo no pós-abolição, mobilizando o elemento racial para detratar seu oponente.

O redator do Operário Livre, além dos insultos racistas, chegou a sofrer violência  física e isso o afetou profundamente. Em 1895, depois dos ataques, a redação do jornal ficou alguns meses fechada e o periódico deixou de circular, pois, segundo o próprio Agostinho Leandro, a polícia não garantia a sua segurança. Quando voltou a ser publicado, depois dos conturbados acontecimentos, passou a veicular alguns textos que combatiam abertamente o preconceito racial.

Além da imprensa, Agostinho Leandro também atuava no âmbito do judiciário, trabalhando como rábula (alguém que sem ter formação superior assumia as funções de advogado) de alguns casos ocorridos na capital paranaense.

Assim, a fama de defensor dos mais vulneráveis, a qual foi conquistando desde o início da década de 1890, ganhou ainda mais força em 1903, quando um grupo que se intitulava como “A classe operária” passou a convocar, por meio de anúncios nos jornais, trabalhadores para votarem em Agostinho Leandro nas eleições para deputado estadual naquele ano. A candidatura, entretanto, não se efetivou e, um ano depois, em 1904, quando tinha apenas 47 anos, Agostinho Leandro faleceu vitimado pela varíola, contraída no Rio de Janeiro, para onde havia se dirigido em uma viagem em que comemorava com a família um prêmio ganho na loteria. De acordo com os jornais, a notícia sobre sua morte, que ocorreu quando já havia retornado a Curitiba, impactou a sociedade curitibana, junto à qual tinha uma grande popularidade.

Ao menos até 1960 é possível encontrar matérias publicadas em diversos jornais a respeito da vida e atuação de Agostinho Leandro em prol dos mais vulneráveis. Nesses registros de memórias, ele foi identificado como abolicionista, precursor do socialismo em Curitiba e defensor dos mais pobres. Essas memórias aos poucos foram se esvaindo, e ele foi ficando ao largo no rol daqueles que lutaram pelas causas sociais no Paraná.

Agostinho Leandro da Costa – Diário da Tarde, 17 de março de 1960. p.1.

Verbete elaborado por Pâmela Beltramin Fabris – Universidade Federal do Paraná – Doutoranda

dezembro 2019

Esse texto é resultado da pesquisa de doutorado da autora (em desenvolvimento) cujo título é “Associativismo e experiências políticas: população negra em Curitiba (1870-1910)”, financiada pela CAPES.

Referências bibliográficas

FABRIS, Pâmela Beltramin. Agostinho Leandro da Costa, um narrador negro. GOVARSK, Patrícia e outros. Sociabilidades: narrativas do outro. São Paulo: Todas a Musas, 2019.

GRAF, Márcia Elisa de Campos. Imprensa Periódica e a Escravidão no Paraná. Curitiba: Secretária de Estado da Cultura, 1981.